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Pesquisadores criam inteligência artificial para acelerar a busca por fármacos para doenças negligenciadas

17/09/2026

Uma sofisticada ferramenta de inteligência computacional promete acelerar a busca por tratamentos de doenças tropicais negligenciadas (DTDs), como malária, dengue, Chagas e leishmaniose. Estima-se que estas infecções causem cerca de 200 mil mortes por ano – 10 mil apenas no Brasil. Por afetarem principalmente populações pobres em áreas tropicais, as DTDs recebem poucos investimentos para o desenvolvimento de novos remédios e vacinas. Para tratá-las, é necessário um grande esforço no mapeamento de proteínas com potencial para o desenvolvimento de medicamentos. Para acelerar o processo, pesquisadores brasileiros, liderados pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), desenvolveram uma ferramenta que integra inteligência computacional para criar um banco de dados abrangente. A plataforma reúne mais de 1,17 milhão de sítios de ligação catalogados em mais de 100 mil proteínas, pertencentes a 10 proteomas de patógenos considerados negligenciados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O trabalho científico, que detalha a plataforma, acaba de ser publicado na revista BMC Bioinformatics. A pesquisa tem como principais autores a professora Sabrina Silveira, o pesquisador em estágio pós-doutoral Vinícius de Almeida Paiva, ambos do Departamento de Ciência da Computação, e o professor Gustavo Bressan, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular. Participaram também o pesquisador Douglas Pires, ex-aluno do Coluni e hoje professor da Universidade de Melbourne, na Austrália, e o pesquisador Sandro Izidoro, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). 

Sabrina Silveira e Vinícius Paiva estão entre os autores do trabalho

Inovação de acesso aberto

Desenvolvidas com financiamento de agências nacionais, como Capes, CNPq e Fapemig, a ferramenta BENDER DB e o meta-preditor BENDER AI integram inteligência computacional para a identificação de sítios de ligação em proteínas — um passo fundamental na descoberta de fármacos. "Enquanto grandes bancos de dados preexistentes — como BindingDB, BioLip, HProteome-BSite e AlphaFill — concentram seus esforços predominantemente no proteoma humano, o BENDER DB inova ao integrar múltiplos métodos de predição computacional especificamente para organismos sub-representados", afirma Vinícius Paiva.

Para construir a plataforma, a equipe utilizou estruturas proteicas geradas pelo AlphaFold de 10 patógenos. A partir daí, executou cinco preditores de sítios de ligação baseados em paradigmas distintos, como grafos e aprendizado profundo. Como cada ferramenta gerava saídas em formatos heterogêneos, os pesquisadores padronizaram os dados em uma representação comum por resíduo.

O diferencial da iniciativa é o BENDER AI, um meta-preditor treinado para buscar o consenso entre os vários métodos considerados que são baseados em paradigmas distintos.. “Ao combinar as saídas dos cinco métodos em uma árvore de decisão baseada em consenso, a ferramenta superou os preditores individuais em precisão (0,70) e AUC (0,89), reduzindo significativamente a taxa de falsos positivos”, explica a professora Sabrina Silveira. A validação incluiu ainda um estudo de caso com a enzima CYP51 do Trypanosoma cruzi, comparando os resultados com anotações de bancos consolidados, como PDB e BioLip. O trabalho foi realizado com apoio do Instituto de Inteligência Artificial e Computacional da UFV (Idata)

Disponibilizado com código aberto no GitHub e em um servidor web interativo com recursos como visualização em heatmap e gráficos UpSet, o BENDER DB reduz barreiras computacionais. A plataforma de acesso público e aberto oferece downloads em lote e links diretos para bases, como DrugBank, ChEMBL e TTD, impulsionando o reposicionamento de fármacos.

Impacto para a ciência e a saúde pública

De acordo com o professor Gustavo Bressan, as doenças historicamente negligenciadas pela grande indústria farmacêutica e pelos financiamentos de pesquisa ficam restritas a regiões tropicais das Américas do Sul e Central, da África e da Ásia. No entanto, as mudanças climáticas têm expandido a distribuição geográfica dessas enfermidades, tornando urgente o desenvolvimento de recursos tecnológicos voltados às populações vulneráveis. “Com o aquecimento global, mosquitos vetores de dengue e malária já aparecem em países antes considerados seguros, como os EUA e nações europeias”, destacou.

Do ponto de vista de políticas públicas, o projeto demonstra a capacidade dos pesquisadores brasileiros de gerar ciência de ponta e de acesso aberto. “Se o Brasil quer proteger sua população, precisa investir na própria ciência. O BENDER DB mostra que é possível produzir aqui conhecimento de qualidade e de acesso aberto contra males que nos afetam diretamente”, conclui Sabrina Silveira.

A pesquisa citada nesta matéria está alinhada aos itens 3 (Saúde e Bem-Estar) 10 (Redução das Desigualdades), 13 (Ação contra a mudança global do clima)  e 17 (Parcerias e meios de implementação)  dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).