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30/08/2026
No dia memorável do seu centenário, a UFV outorgou, pela primeira vez em sua história, o título de Doutor Honoris Causa, sua mais alta distinção acadêmica, a uma mulher. A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes Rocha é a 12ª pessoa a receber essa titulação, até então conferida apenas a homens. Como lembrou o reitor da instituição, Demetrius David da Silva, a universidade é criteriosa ao conceder essa honraria máxima e o faz somente a personalidades que realmente se destacaram por atuações extraordinárias em favor do país, das ciências, artes ou cultura.

O auditório do Espaço Acadêmico-Cultural Fernando Sabino ficou pequeno para tantas pessoas que queriam ver, de perto, a ministra que se tornou famosa e popular por suas posturas firmes na defesa da democracia, no fortalecimento das instituições republicanas e no incentivo à participação feminina na política. Sorridente e muito simpática, ela foi conduzida pelos diretores e diretoras dos centros de ciências e dos campi de Florestal e Rio Paranaíba e aplaudida calorosamente pelo público — gesto que se repetiria diversas vezes ao longo do evento.

Entre os presentes à cerimônia, havia muitos motivos para testemunhar o evento histórico: o centenário da UFV, a outorga de uma honraria de tal magnitude e o significado da figura de Cármen Lúcia para o país. Para a estudante de Física Isabel Tavares, é importante ver de perto uma mulher alcançar posições de destaque. “É uma inspiração para nós, que ainda lutamos muito por visibilidade”, afirmou.

Em estágio pós-doutoral em Solos, Jonathas Silva compareceu pela representatividade da ministra na defesa da liberdade de expressão e por seu posicionamento firme diante dos desafios políticos do Brasil. Já a professora Débora Melo, do curso de Direito no campus Rio Paranaíba, viajou mais de 500 km para prestigiar “uma guardiã da Constituição Federal”.
O papel desempenhado por Cármen Lúcia no STF em defesa da democracia, dos direitos individuais e no combate à violência contra a mulher também motivou a presença de Joana Hollerbach, professora do Departamento de Educação do campus Viçosa. “As consequências do machismo estão insuportáveis. Quis prestigiar uma autoridade que luta por leis de proteção às mulheres”, completou o servidor da Unidade de Políticas Inclusivas da UFV Marcelo Negrão.

Coube ao viçosense Júlio Ferreira de Andrade, juiz auxiliar de Cármen Lúcia no STF e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), resumir o extenso currículo da homenageada. “A ministra entrega ao país um legado permanente de respeito ao cidadão, cuidado com a coisa pública, compromisso intransigente com a ética e dedicação absoluta ao trabalho. Ela representa o que há de melhor no Brasil”, ressaltou, lembrando que ela foi a primeira mulher a presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a segunda a ocupar a presidência do STF. Cármen Lúcia integra também a Comissão de Veneza, órgão consultivo do Conselho da Europa para questões constitucionais, o que reforça sua atuação global na proteção da democracia e do Estado de Direito.
Júlio Andrade destacou a ministra como a principal liderança nacional na salvaguarda dos direitos femininos, estabelecendo políticas concretas para efetivar a presença de mulheres em espaços de poder e impulsionar normas que garantem a paridade de gênero no Judiciário. Lembrou ainda sua atuação firme na defesa da liberdade de expressão e na condução das eleições de 2012 e 2024. Segundo ele, a aplicação da Lei da Ficha Limpa nos pleitos e a regulamentação da Inteligência Artificial nas campanhas protegem a decisão do eleitor frente aos desafios da era digital. “Sua atuação revela uma compreensão do Direito que enxerga na Justiça um encontro permanente com a ética e a dignidade”, declarou.

Em seu discurso, o reitor destacou a honra da UFV em acolher Cármen Lúcia na comunidade acadêmica. “Escolhemos uma mulher cuja trajetória se relaciona profundamente com os valores que sustentam uma sociedade democrática: a Constituição, a justiça, a igualdade, a liberdade e a educação”, afirmou, ressaltando que, antes do STF, ela ocupou salas de aula como docente e pesquisadora dos preceitos constitucionais, transformando o saber acadêmico em instrumento de cidadania.
Ao recordar que a ministra dedicou grande parte de sua produção intelectual ao princípio constitucional da igualdade, o reitor reiterou: “O exercício de uma função pública só alcança plenamente seu sentido quando acompanhado de valores maiores do que o próprio cargo, entre eles, a igualdade. Isso encontra correspondência profunda com a missão de uma instituição pública, visto que a educação superior é uma das mais poderosas ferramentas de democratização de oportunidades.”
Demetrius ressaltou momentos marcantes da homenageada, como o julgamento da ADPF 548/2020, em que atuou na defesa da liberdade de manifestação, do livre ensino-aprendizagem e da autonomia universitária. “Naquele momento, diante de tentativas de interferência em atividades acadêmicas e manifestações dentro das universidades, o STF reafirmou que esses espaços precisam permanecer abertos ao debate e à diversidade de ideias.” O reitor também lembrou a célebre frase da ministra quando, naquele debate, afirmou que “a única força legitimada a invadir uma universidade é a das ideias livres e plurais”. Ao celebrar Cármen Lúcia como nova integrante da comunidade universitária, concluiu lembrando que governos passam, mas as instituições produtoras de conhecimento permanecem: “Proteger a universidade é proteger a democracia e o futuro do país, e são esses os valores que devem nortear a nossa instituição nos próximos 100 anos.”

Além do tom firme na defesa das instituições, Cármen Lúcia é reconhecida no cenário público por incorporar referências bem humoradas e poéticas, sobretudo de autores mineiros. Foi assim, como quem conta histórias, que ela falou sobre liberdade, democracia e a importância das universidades para a independência de um povo. “É preciso que os governantes saibam que a educação é o primeiro passo para uma caminhada libertadora”, disse ela.
A ministra defendeu o voto e a participação popular como instrumentos de transformação social, assegurou o valor da urna eletrônica e alertou para os perigos dos algoritmos, que tantas vezes distraem a população para seus compromissos com a construção de uma sociedade mais justa para todos. Ela ainda citou os preconceitos contra grupos, a pobreza e a recorrente violência contra mulheres como “a ausência de dignidade humana que precede a democracia”.
Ao agradecer o título de Doutora Honoris Causa, Cármen Lúcia disse que tudo fará para honrar a UFV que agora leva consigo. “A universidade é o mais importante equipamento que nós temos para construir uma sociedade livre, justa, fraterna e solidária”, disse a ministra.

Dada a sua importância, a solenidade de concessão do título reuniu diversas autoridades. Na foto à esquerda do reitor Demetrius, estavam: a homenageada, ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha; a vice-reitora, Rejane Nascentes; o presidente da Câmara de Vereadores de Viçosa, Robson Alencar de Souza; o ex-reitor da UFV, Luiz Cláudio Costa; o reitor da Universidade Federal de Campina Grande e vice-presidente da Andifes, Camilo Allyson Simões de Farias; o presidente do Tribunal Regional Federal da 6ª Região, desembargador Ricardo Machado Rabelo; e o conselheiro-presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, Durval Ângelo Andrade. Do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, estavam a desembargadora Âmalin Aziz Sant'Ana e a representante do corregedor-geral do Tribunal de Justiça de Minas Gerais e diretora do Foro da Comarca de Viçosa, Giovanna Travenzolli Abreu Lourenço. À direita do reitor da UFV, na foto, estavam: o secretário de Órgãos Colegiados, Marcos Furtado; o prefeito de Viçosa, Ângelo Chequer; o ex-reitor da UFV, Evaldo Ferreira Vilela; o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, desembargador Vicente de Oliveira Silva; o presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, desembargador Carlos Henrique Perpétuo Braga; o vice-presidente e corregedor do Tribunal Regional Eleitoral, desembargador Sálvio Chaves; os desembargadores Paulo de Tarso Tamburini e Maurício Soares, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; e o representante da presidência da Associação dos Magistrados Mineiros, juiz Elias Charbil Abdou Obeid.
Também participaram da mesa de honra, pró-reitores e diretores dos Centros de Ciências e dos campi de Florestal e Rio Paranaíba e membros do Conselho Universitário, responsáveis pela aprovação da proposição do nome da homenageada, indicado pelo reitor.
A ministra do STF também esteve na reitoria para assinar o Livro de Ouro da UFV e se encontrar com autoridades do JudiciárioA cerimônia de outorga da titulação à ministra foi transmitida ao vivo e pode ser acessada no canal da UFV no YouTube.
Outras fotos do evento podem ser conferidas no álbum do Flick.
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