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Estudo da UFV propõe bioengenharia para recuperar margens do Rio Paraopeba em Brumadinho

25/05/2026

O rompimento da barragem em Brumadinho, em 2019, tornou alguns pontos das margens do rio Paraopeba instáveis e com riscos de assoreamento. Até então, a solução mais comum para recuperação destas áreas era o uso do riprap - a técnica utiliza barreiras de pedras que, embora contenha o solo, não recupera a biodiversidade local. Agora, um estudo detalhado realizado por pesquisadores da UFV apresenta uma solução baseada na Engenharia Natural (ou Bioengenharia de Solos) para restaurar áreas atingidas em Minas Gerais, servindo como guia para políticas públicas e empresas de recuperação ambiental.

O trabalho, publicado na revista científica Sustainability, foi desenvolvido por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal da UFV, sob orientação do professor Sebastião Venâncio Martins. Ele explica que as pedras utilizadas tradicionalmente são estruturas "mortas" que apenas contêm a lama de rejeitos. Por isso, era preciso ir além.

“As técnicas de engenharia natural, que utilizam pedras, troncos e plantas vivas, são comuns em regiões de clima temperado, como a Europa e os EUA. No Brasil, já existiam testes em estufas sobre o enraizamento de espécies nativas, mas faltavam testes significativos em ambientes reais. Foi o que fez a equipe do Laboratório de Restauração Florestal (Larf) da UFV. Depois dos testes em estufa sobre o enraizamento de estacas de espécies nativas, os pesquisadores foram testar essas plantas na prática, enfrentando as cheias do rio e o solo alterado — algo que ainda não havia sido documentado com precisão científica em sistemas tropicais após acidentes de mineração”, explica o professor.

O método

Durante meses, os pesquisadores selecionaram espécies de árvores nativas de matas ciliares de Brumadinho (MG) e monitoraram o desempenho de estacas vivas (galhos com capacidade de enraizamento) instaladas diretamente nas margens.

A equipe observou como o sistema de raízes segurava a terra e como a presença da vegetação melhorava a fertilidade química do solo, favorecendo, inclusive, o surgimento espontâneo de novas espécies. “Identificamos quais plantas conseguem trabalhar melhor como ‘engenheiras do solo’”, afirma Martins.

 

As melhores espécies

Os pesquisadores concluíram que a Sangra-d’água (Croton urucurana) apresentou as maiores taxas de sobrevivência e crescimento, funcionando como uma "âncora" natural. Já o Sarandi (Salix virgata) destacou-se pela rapidez, oferecendo proteção imediata contra a erosão. Por outro lado, a espécie Gymnanthes schottiana, embora tenha enraizado bem, não se adaptou às cheias prolongadas.

“A seleção correta da espécie define o sucesso da obra. Em vez de tentativa e erro, agora há dados que indicam quais espécies priorizar em áreas atingidas por mineração”, destaca o orientador do trabalho.

O artigo ressalta ainda que, além da estabilização das margens, a técnica resultou em aumento significativo nos estoques de carbono orgânico do solo (na camada de 0 a 40 cm), indicando uma recuperação rápida do ecossistema. As raízes criam uma malha que impede que o solo volte para a água, evitando o assoreamento do rio.

As espécies selecionadas já estão crescendo na beira do rio

 

A tecnologia, realizada em parceria com a empresa Vale, é ideal para locais impactados por rejeitos e margens degradadas em geral. Além da mineração, a técnica pode ser aplicada no controle de erosão em rodovias, recuperação de rios urbanos e estabilização de encostas em parques lineares.

A pesquisa citada nesta matéria está alinhada aos itens 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), 14 (Vida na Água) e 15 (Vida terrestre) dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).