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27/10/2021
Nos laticínios, as pseudomonas causam danos à imagem e ao sabor dos alimentos
Garantir que produtos como carne, leite e derivados cheguem ao supermercado com a qualidade que o consumidor precisa é um desafio para a indústria. De vez em quando, microrganismos ou enzimas conseguem se manter ativos mesmo após o processamento, causando problemas no rendimento dos produtos e na qualidade e aparência dos alimentos. É o caso de um gênero de bactérias chamado Pseudomonas, que tem atormentado o controle de qualidade das indústrias. Agora, pesquisadores dos Departamentos de Tecnologia de Alimentos (DTA) de Biologia Geral (DBG) e de Medicina e Enfermagem (DEM) da UFV, em conjunto com a Universidade Laval, no Canadá, desenvolveram um teste capaz de detectar espécies desta bactéria. O kit está em processo de registro de patente e poderá ser usado também em controle de contaminações em hospitais e de infecções em indivíduos imunossuprimidos.
Monique Eller, professora do DTA, é uma das responsáveis pela invenção do teste de detecção. Ela explica que, na fase de processamento de laticínios e carnes, a espécie Pseudomonas fluorescens se desenvolve mesmo sob refrigeração, produzindo enzimas que conseguem se manter ativas depois dos processos de pasteurização e esterilização. No leite, se a contaminação aconteceu antes do tratamento térmico, as enzimas que não foram inativadas continuam agindo dentro da caixinha, provocando algo semelhante a uma nata no fundo da embalagem, processo conhecido como gelificação. O desenvolvimento destas bactérias em produtos lácteos também gera manchas coloridas nos produtos e afeta o rendimento na produção dos derivados lácteos, causando muitos prejuízos.
Embora a aparência dos produtos contaminados incomode muito os consumidores e a reputação das empresas, os danos são apenas econômicos e sensoriais. A professora Monique garante que essa espécie é comum no ambiente e, normalmente, não causa danos à saúde. O maior problema, porém, é que este gênero de bactérias forma um biofilme, uma espécie de proteção para a bactéria, que gruda até mesmo em materiais mais fáceis de sanitizar, como o aço inox. “Sozinha, a P. fluorescens não causa doenças, mas é comum que patógenos como a Salmonella spp. e a Listeria spp. colonizem os biofilmes formados, ficando mais protegidos e permanecendo no equipamento mesmo após alguns procedimentos de limpeza. Estando ali, elas podem contaminar os alimentos durante o processamento. Estas sim, são danosas à saúde”, disse ela.
Já nos hospitais, quem incomoda é a Pseudomas aeruginosa. Esta espécie, do mesmo gênero, é mais perigosa e causa infecções oportunistas em pacientes já debilitados. A presença dela está ligada a infecções em vítimas de queimaduras, de problemas hematogênicos e dos tratos urinário e respiratório. O biofilme produzido pelas bactérias dessa espécie entope cateteres e também pode abrigar outros patógenos presentes no ambiente, provocando infecções hospitalares.
O kit de detecção
Segundo os pesquisadores, a detecção precoce desses microrganismos na indústria ou em ambientes hospitalares sempre foi um desafio para a ciência. Para chegar a uma solução para detecção da presença dessas duas espécies de Pseudomonas foram muitos anos de estudos em duas teses realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Produtos e Processos Biotecnológicos na Indústria de Alimentos do DTA/UFV. A técnica é aparentemente simples. Basta pingar uma gota da substância desenvolvida nas superfícies ou em soluções com suspeita de contaminação. Esta solução foi desenvolvida usando uma proteína de um vírus que infecta especificamente bactérias do gênero Pseudomonas. Se estas estiverem presentes, uma espécie de grumo preto se forma na superfície em menos de um minuto. O resultado é rápido e visível a olho nu. Segundo os pesquisadores, a tecnologia é inovadora, segura, de fácil manipulação e não exige equipamentos especiais ou intermediários para realização.
A tecnologia está em fase de registro de patente. “As indústrias de alimentos já têm protocolos de descontaminação para estes microrganismos. O problema estava na identificação precoce deles, por isso acreditamos que o kit vai ajudar muito no controle de qualidade dos alimentos”, disse Monique. Para a médica e pesquisadora Izabela Botelho, que também integra a equipe, a identificação precoce dos microrganismos causadores de infecções nas clínicas e hospitais poderá direcionar medidas de tratamento mais assertivos com antibióticos, diminuindo a seleção de microrganismos resistentes e reduzindo o número de tratamentos inespecíficos ou mesmo incorretos aplicados.
Foto: Raphaela Rodrigues - Laboratório Inovaleite (UFV)
Léa Medeiros
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