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23/09/2026
Nem sempre o que afeta um rio vai embora com a correnteza. Às vezes, as marcas permanecem por mais tempo do que a biodiversidade local consegue suportar. É o caso da Bacia do Rio Doce, uma das mais importantes da região Sudeste do Brasil, cujas águas abastecem mais de 200 municípios entre Minas Gerais e o Espírito Santo. Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), provocou o maior desastre ambiental da história do país, devastando severamente os ecossistemas aquáticos e terrestres ao longo de 660 quilômetros. O fluxo de lama reduziu drasticamente o oxigênio da água, sufocando peixes e diminuindo a diversidade de espécies nativas na calha do rio. Desde o acidente, pesquisadores de diversas instituições acompanham a biodiversidade aquática para embasar ações de reparação e conservação.
Um estudo publicado por pesquisadores da UFV mostra que, 10 anos depois, peixes nativos, originais da bacia, apresentam sinais de comprometimento reprodutivo, enquanto espécies não nativas (cuja origem é de outras bacias hidrográficas) encontram condições favoráveis para se reproduzir e se estabelecer no baixo Rio Doce. A redução severa da fauna nativa pode alterar a disponibilidade dos recursos pesqueiros, impactando a biodiversidade e as comunidades humanas que dependem do rio para sua subsistência e economia.
O artigo, publicado na revista internacional Anatomia, Histologia, Embryologia, tem como principais autores a professora do Departamento de Biologia Animal Elisabeth Henschel e o pesquisador em estágio pós-doutoral Lucas Marcon.
Pesquisadores em coleta de dados no Rio DoceOs dados utilizados pelos pesquisadores da UFV foram coletados no âmbito do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) da Bacia do Rio Doce. O Programa reúne pesquisadores, técnicos e estudantes de diversas universidades e conta com a participação da UFV desde a sua criação, três anos após a tragédia ambiental. O seu objetivo é acompanhar, em longo prazo, a condição dos ambientes aquáticos atingidos e gerar informações científicas que subsidiem as ações de reparação e conservação. A professora Elisabeth Henschel coordena o tema Ecologia de Peixes do Ambiente Dulcícola do PMBA.
Ela explicou que a pesquisa que gerou o artigo utilizou dados obtidos desde 2018 - três anos após o desastre. Isso porque uma coleta isolada retrata a saúde do rio apenas naquele momento. Já as séries históricas, obtidas ao longo de quase 10 anos, permitem identificar se determinadas mudanças são oscilações naturais ou tendências concretas de alteração, o que reforça a consistência dos resultados. "Uma das maiores forças do Programa é a continuidade. Isso transforma percepções em dados comparáveis para embasar decisões públicas”, disse ela.
Com isso, em vez de focar em apenas uma espécie ou ponto isolado do rio, a equipe avaliou se os peixes amostrados conseguiam se reproduzir normalmente, se espécies nativas e não nativas apresentavam padrões reprodutivos distintos e se havia alterações microscópicas nos órgãos reprodutivos e no sistema nervoso das larvas. Com essa abordagem, a própria comunidade de peixes tornou-se o principal indicador da condição do ecossistema.
Os resultados do estudo mostram que o Rio Doce continua biologicamente ativo e com peixes em reprodução, mas indicam que o ecossistema está longe de retornar à sua condição original. Segundo o pesquisador Lucas Marcon, duas evidências principais acendem um sinal de alerta sobre os peixes:
- Maior atividade reprodutiva de espécies não nativas: espécies introduzidas por ação humana estão se reproduzindo com mais sucesso do que as nativas, tanto na calha principal quanto nos afluentes.
- As anomalias biológicas: foram identificadas alterações microscópicas nos órgãos reprodutivos de várias espécies e malformações no desenvolvimento do sistema nervoso de larvas.
A professora Elisabeth Henschel integra o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) da Bacia do Rio Doce"O mais relevante é que essas alterações ocorreram em diferentes espécies — nativas e não nativas —, sugerindo que não se trata de um problema isolado, mas sim de sinais biológicos de um ecossistema submetido a pressões ambientais persistentes", ressaltou Elisabeth.
O avanço das espécies não nativas traz consequências diretas para a bacia hidrográfica, como a competição por recursos, a predação de peixes nativos e mudanças profundas na cadeia alimentar. A longo prazo, a proliferação dessas espécies pode levar à redução severa da fauna nativa e alterar a disponibilidade dos recursos pesqueiros, impactando diretamente as comunidades humanas que dependem do Rio Doce para sua subsistência e economia.
O estudo foi financiado pela Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest/Ufes) como parte do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA) do Rio Doce.
A pesquisa citada nesta matéria está alinhada ao itens 6 (Água potável e saneamento) 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e 14 (Vida na Água) dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
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