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Campus Viçosa

UFV na Ilha da Trindade: graduanda participa de expedição científica para investigar animais aquáticos invertebrados

28/09/2026

Imagine participar de uma expedição científica, passar dias navegando pelo Oceano Atlântico e meses explorando uma das ilhas mais distantes da costa do país, em busca de informações até então desconhecidas pela humanidade. Esse poderia ser o início de uma história de ficção, mas é o início de uma história real, sobre pesquisa, contada pela estudante de graduação da UFV Janaina Hokoç. A ciência e a imaginação compartilham mesmo um encantamento pelo que ainda não é compreendido. A educação superior e a universidade pública, nesse caso — e em muitos outros —, tornaram realidade a ida da futura bióloga para a Ilha da Trindade, com a missão de contribuir para ampliar o que é sabido sobre a biodiversidade de animais aquáticos invertebrados do grupo dos hidrozoários.

Janaina cresceu em contato com o mar, em Cumuruxatiba (BA), e não imaginava o quanto a formação e as vivências proporcionadas pelo curso de Ciências Biológicas, no campus Viçosa, no interior de Minas Gerais, intensificariam essa conexão. Foi devido à atuação no Laboratório de Evolução de Invertebrados Aquáticos (Leia) da UFV que Janaina foi convidada para integrar a equipe de um projeto de pesquisa que inclui a investigação de espécies de hidrozoários no ecossistema da Ilha da Trindade. Este projeto é liderado pelo professor da Universidade de São Paulo Marcos Tavares, de quem partiu o convite de colaboração para a coordenadora do Leia-UFV e especialista em hidrozoários, a professora do Departamento de Biologia Animal Amanda Cunha, e para Janaina.

Buscar informações sobre a biodiversidade dos hidrozoários — que fazem parte do grupo dos corais, das anêmonas e das águas-vivas — é importante sob diferentes perspectivas. Uma delas é a da proteção desses animais e de suas funções ecológicas, como predadores, presas e formadores de habitats, entre outras, ligadas à manutenção do equilíbrio ambiental. De acordo com Janaina, os hidrozoários ainda não são muito bem conhecidos, até porque, em geral, são pequenos e sua identificação é “bastante especializada”. Muitas vezes, passam despercebidos. Além disso, aprender sobre esses animais pode contribuir para entendimentos mais abrangentes sobre evolução e ciclos de vida, assim como de outras áreas de estudo, como potencial biotecnológico e médico.

Nesse contexto, a Ilha da Trindade torna-se um laboratório único, isolado do continente, sem população nativa ou fixa. A Ilha fica a mais de mil quilômetros da costa brasileira, ao leste da cidade de Vitória, no estado do Espírito Santo, e tem uma área de aproximadamente dez quilômetros quadrados. É administrada pela Marinha do Brasil; turistas não têm permissão para visitar, o acesso é restrito a militares e pesquisadores.

Por tudo isso, um convite de colaboração como esse, envolvendo uma expedição científica à Ilha da Trindade, com a participação de uma estudante de nível de graduação e de uma instituição de ensino superior no interior de Minas Gerais, pode ser considerado raro, na avaliação da professora Amanda. Ela explica que pesquisas só começaram a ser realizadas com mais frequência e continuidade na Ilha a partir de 2009, com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que fomentou iniciativas para o estabelecimento de infraestrutura adequada para isso no local. Mesmo assim, o acesso é controlado.

As pesquisadoras ficaram alojadas na Estação Científica da Ilha da Trindade, que dispõe de dormitórios, banheiros, cozinha, sala e dois laboratórios. Junto com elas estiveram militares da Marinha do Brasil e outros oito pesquisadores de diferentes instituições do país

 

Trabalho de campo

Amanda e Janaina se juntaram à expedição científica no Rio de Janeiro (RJ) no início de julho e, depois de três dias navegando, em um navio da Marinha, chegaram à Ilha da Trindade. Lá, a professora (à esq. na foto ao lado) permaneceu por cinco dias e a estudante (à dir.), por quase dois meses. Janaina retornou a Viçosa no início de setembro.

Janaina relata que sua rotina envolveu percorrer a Ilha a pé e coletar amostras em todas as praias e pontos de mergulho. Ela encontrou várias espécies de hidrozoários e de outros invertebrados bentônicos (que passam toda ou a maior parte da vida em contato direto com o fundo de um ambiente aquático), os quais, agora, serão analisados.

A fase de análise é mais demorada, exige cuidado. “Precisamos observar as características morfológicas dos organismos coletados e compará-las com as descrições e os exemplares existentes; dependendo da complexidade da identificação, pode levar alguns meses”, esclarece a estudante. A expectativa de descobrir novas espécies, segundo ela, é grande. “Nas análises iniciais, identificamos espécies conhecidas pela ciência e que não haviam sido registradas para a Ilha, ou seja, novos registros já foram confirmados”, destaca.

Janaina completou todas as trilhas oficiais e recebeu, da Marinha do Brasil, o tradicional título honorífico de Grão-Mestre da Ilha da Trindade. Percorrer o terreno de formação vulcânica e muito acidentado da Ilha, indo a todos os seus pontos de observação, é considerado uma grande conquista de exploração e esforço físico
 

Experiências

Janaina afirma que a experiência “foi como um sonho”. A estudante fala com orgulho sobre o trabalho realizado e seus desdobramentos, como ter conhecido profissionais “sensacionais” e participar da escrita de artigos científicos. “Saber que faço parte de uma pesquisa tão importante sobre biodiversidade e conservação faz meu coração transbordar de felicidade”, enfatiza.

Com o trabalho, Janaina também passou a vislumbrar a pesquisa em nível de pós-graduação em seu futuro: “a expedição foi decisiva para consolidar meus próximos passos acadêmicos; me deu a certeza de que quero seguir para o mestrado e, muito provavelmente, para o doutorado”.

Também foi a primeira vez em que a professora Amanda esteve na Ilha. De acordo com ela, experiências como essa, no ambiente natural, para os biólogos, correspondem à parte mais “apaixonante” do trabalho. Além disso, a professora diz que “foi muito enriquecedor e comovente ver o impacto na formação e crescimento da Janaína”.

A expedição científica também realça o quanto a UFV é diversa; o acontecimento é um exemplo de que a instituição, a formação que ela oferece, pode abranger todas as áreas do conhecimento. “Essa é uma mentalidade ainda muito prevalente, não só entre o público em geral, mas entre pesquisadores e tomadores de decisão nas universidades e agências financiadoras, de que não se faz pesquisa com ambientes marinhos no estado de Minas Gerais, porque aqui não tem mar”, alerta Amanda. Ela reconhece que trabalhar longe dos oceanos é desafiador, mas possível. Considera, inclusive, imprescindível para que todas as pessoas entendam que o mar faz parte da vida delas: “esse tem sido o principal objetivo do Leia-UFV, nas atividades de extensão: aproximar as pessoas do mar e ajudá-las a reconhecer que o mar está presente nas nossas vidas o tempo todo, mesmo que a gente não esteja perto dele”.

Como Janaina complementa: "existe um pedacinho de mar em Viçosa, no nosso laboratório".

O projeto de pesquisa liderado pelo professor da Universidade de São Paulo Marcos Tavares, com o qual Amanda e Janaina colaboram, é intitulado "Biodiversidade de macroinvertebrados bentônicos marinhos costeiros na Ilha da Trindade e Arquipélago de Martim Vaz (Brasil): taxonomia, afinidades zoogeográficas e diferenciação genética" e é financiado pelo CNPq