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Mudanças climáticas ameaçam 73% das árvores prioritárias para conservação na Bacia do Rio Doce

08/09/2026

A combinação entre o histórico de desmatamento, a fragmentação florestal, os impactos do rompimento da barragem de Fundão (Mariana - MG), em 2015, e o avanço das mudanças climáticas coloca em risco o futuro da biodiversidade na Bacia do Rio Doce. O estudo - publicado em agosto, na revista Biodiversity and Conservation por pesquisadores da UFV - revela que 73% das espécies de árvores prioritárias para conservação analisadas devem perder mais de três quartos de suas áreas com clima adequado para o desenvolvimento delas nesta bacia, até 2090. A pesquisa alerta ainda que a atual rede de unidades de conservação (UCs) não será suficiente para proteger a flora local no longo prazo, exigindo um redirecionamento nas estratégias de restauração ecológica e de políticas públicas.

O trabalho foi realizado por pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Evolução de Plantas do Departamento de Biologia Vegetal da UFV e orientado pelo professor João Augusto Alves Meira Neto, coordenador do Laboratório. O levantamento analisou 26 espécies de árvores prioritárias para a conservação na bacia e concluiu que 19 delas (73%) podem perder mais de 75% de sua área climaticamente adequada até o final do século. Entre as espécies mais impactadas estão árvores raras e icônicas da região, como o ipê-preto (Handroanthus arianeae) e a peroba-candeia (Grazielodendron rio-docensis), que enfrentam risco elevado de extinção local.

Segundo a doutoranda Cecília Loren Silva, “a Bacia do Rio Doce, que já é historicamente marcada pelo avanço das pastagens, pela atividade de mineração e pela tragédia do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, em 2015, enfrenta agora a grave ameaça do colapso climático de suas espécies arbóreas nativas”.

Ela reitera que, embora a comunidade científica já soubesse que a mudança climática está reorganizando a distribuição de plantas pelo planeta, a maioria das modelagens focava em grandes escalas continentais ou nacionais. “Com isso, bacias hidrográficas em situação crítica ficavam sub-representadas. O novo estudo preenche essa lacuna ao trazer dados em alta resolução espacial”, afirma Cecília.

Os pesquisadores também identificaram uma grave vulnerabilidade na gestão ambiental da região: a rede atual de UCs será insuficiente para resguardar as plantas no futuro. As projeções indicam que a maior parte dos territórios que se manterão favoráveis ao desenvolvimento dessas árvores está fora dos limites das reservas protegidas. Por outro lado, a análise espacial revelou que o extremo leste da bacia concentrará os refúgios climáticos mais estáveis, surgindo como área-chave para a sobrevivência dessas espécies.

 

Como a pesquisa foi feita

Para chegar a essas conclusões, a equipe combinou registros de ocorrência de dados públicos com inventários florestais de campo, realizados em 22 fragmentos da Bacia do Rio Doce. Esse conjunto de dados foi cruzado com variáveis de temperatura, precipitação, relevo e solo.

A partir de algoritmos de modelagem computacional, os cientistas simularam as preferências ecológicas de cada espécie frente aos cenários de emissões de gases de efeito estufa, projetados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para os anos de 2050 e 2090. Os mapas gerados foram sobrepostos com o uso atual do solo da bacia para determinar a real perda de habitat.

 

Impacto na restauração e políticas públicas

Os resultados ampliam a compreensão sobre o impacto do clima na flora tropical ao evidenciar riscos que as listas tradicionais de espécies ameaçadas não conseguem captar isoladamente.

A expectativa dos autores é de que os mapas e projeções gerados sirvam de guia prático para órgãos ambientais, gestores públicos e instituições envolvidas nas ações de reparação da Bacia do Rio Doce. “Ao identificar antecipadamente quais territórios manterão condições climáticas adequadas no futuro, os projetos de reflorestamento e criação de novas áreas protegidas poderão priorizar esses refúgios climáticos, garantindo que os investimentos em conservação tenham eficácia nas próximas décadas”, afirmou a pesquisadora, primeira autora do trabalho.

 

A pesquisa citada nesta matéria está alinhada aos itens 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima) e 15 (Vida Terrestre)