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04/08/2026
Em tempos de mudanças climáticas, mensurar a quantidade de serviços ecossistêmicos produzidos por uma floresta preservada tornou-se essencial, tanto para produtores quanto para países que buscam estocar carbono e gerar ativos financeiros no mercado de crédito verde. O tema é ainda mais atual, considerando que estamos em plena vigência da década da Restauração dos Ecossistemas (2021 a 2030), instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, há um esforço global para reverter a degradação e incentivar o crescimento de novas florestas em áreas degradadas. A questão é que, até agora, não se sabia exatamente se as florestas secundárias ofereciam os mesmos benefícios de regulação climática que as áreas preservadas. Esclarecer essa dúvida foi o objetivo de uma pesquisa liderada por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa (PPGMET/UFV). Os resultados foram publicados, nesta semana, na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), uma revista de alto impacto no meio científico internacional.
Imagem aérea exibe a fragmentação da vegetação na Amazônia, onde o entorno e o contexto da paisagem desempenham um papel crítico na capacidade das florestas secundárias de recuperar serviços essenciais de regulação do clima.Florestas secundárias são aquelas que voltam a crescer naturalmente após episódios de desmatamento, abandono ou outros usos da terra. De acordo com os autores, já era de conhecimento da ciência que essas áreas ajudavam a regular o clima ao recuperar biomassa, retirar carbono da atmosfera e conservar a biodiversidade. Contudo, havia uma lacuna sobre a sua capacidade de recuperar, em conjunto, funções climáticas, como chuva, evapotranspiração e resfriamento da superfície em níveis semelhantes aos das florestas primárias, mais antigas e preservadas. “A novidade do nosso estudo foi avaliar se essas funções são semelhantes às observadas nas florestas primárias, considerando não apenas a idade e a área ocupada pela floresta secundária, mas também as diferenças entre os anos e os locais onde ocorrem”, afirma a professora Gabrielle Ferreira Pires, orientadora da pesquisa.
Em busca de respostas, os pesquisadores analisaram paisagens atuais que refletem onde as florestas secundárias estão se regenerando. Com dados do clima e de cobertura da terra, eles compararam as condições associadas às florestas primárias e secundárias em três sub-regiões da Amazônia: central, leste e sul. Para isso, o grupo realizou duas comparações complementares. Primeiro, analisou as florestas primária e secundária sob condições semelhantes de contexto. Depois, avaliou a paisagem atual, isto é, onde essas florestas estão efetivamente localizadas hoje na Amazônia. “Isso nos permitiu entender tanto o potencial climático da floresta secundária quanto a forma como esse potencial se manifesta nas condições reais em que a regeneração acontece”, explica Lais Rosa-Oliveira, doutoranda do PPGMET/UFV.
O principal achado do estudo é que, embora as florestas secundárias da Amazônia tenham potencial para regular o clima de forma semelhante às primárias, a recuperação ainda é incompleta nas paisagens reais onde crescem. As áreas regeneradas se aproximaram das florestas primárias em alguns aspectos, principalmente na evapotranspiração. No entanto, ainda apresentaram diferenças expressivas em relação à chuva e à temperatura da superfície, com disparidades mais acentuadas nas regiões com maior interferência humana, como o leste e o sul da Amazônia brasileira.
Embora o estudo tenha sido feito na Amazônia, a grande extensão territorial e a heterogeneidade da região permitiram observar como a recuperação climática varia em diferentes contextos, ampliando o conhecimento sobre o papel da regeneração florestal na regulação do clima.
Os resultados mostram que a floresta secundária consegue resgatar funções climáticas relevantes, mas essa restauração não ocorre de maneira uniforme. “A recuperação varia conforme a região, o estágio de regeneração, a área ocupada e o contexto da paisagem em que a floresta está crescendo”, esclarece Aline Pontes Lopes, uma das autoras do trabalho.
Para os pesquisadores, as descobertas trazem um alerta e uma diretriz: embora a regeneração florestal seja uma forte aliada da regulação climática, seu impacto real depende de onde e como ocorre. Isso reforça a urgência de manter a conservação das florestas primárias no topo das prioridades e, simultaneamente, estruturar um planejamento estratégico para a restauração ambiental na Amazônia e em outras regiões tropicais.
Gabrielle Pires e Lais Rosa-Oliveira, professora e doutoranda do PPGMET/UFVA pesquisa citada nesta matéria está alinhada aos itens 13 (Ação contra a mudança global do clima) e 15 (Vida Terrestre) dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
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