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08/06/2026
Uma pesquisa desenvolvida no Departamento de Educação Física da UFV acendeu um alerta vital sobre os perigos ocultos por trás do uso indiscriminado de esteroides anabolizantes. O estudo investigou os impactos da combinação entre treinamento de força e o decanoato de nandrolona (um tipo popular de anabolizante). Os resultados alertam para o risco de danos cardiovasculares importantes que nem sempre são percebidos pelos usuários e revelam um fenômeno preocupante batizado pelos autores de "paradoxo cardíaco".
A descoberta é fruto da pesquisa de doutorado de Alexa Alves de Moraes, que é fisioterapeuta da Divisão de Saúde da UFV, sob orientação do professor Miguel Araújo Carneiro Júnior, do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da UFV (PPGEFI-UFV). O trabalho também contou com a coorientação dos professores Antônio José Natali (Educação Física), Emily Correna Carlo Reis (Medicina Veterinária) e Leandro Licursi de Oliveira (Biologia Geral). Parte do trabalho foi realizado por meio de um doutorado sanduíche realizado no Instituto Politécnico de Bragança, em Portugal, em colaboração com o professor Pedro Forte e com financiamento da Capes.

De acordo com os autores, apesar do aumento da massa muscular e de adaptações celulares aparentemente favoráveis, o uso de esteroides anabolizantes pode fazer com que o coração apresente redução de sua capacidade funcional, aumento do estresse oxidativo e prejuízos estruturais, além de não haver garantia de melhora na performance. "Esses achados reforçam que ganhos estéticos podem vir acompanhados de riscos significativos à saúde cardiovascular", afirma o professor Miguel Araújo.
Ao avaliar os efeitos de anabolizantes em ratos como modelos experimentais, os pesquisadores mapearam quatro descobertas que quebram antigos mitos sobre o uso de esteroides associados à musculação:
Ilusão a nível celular: De maneira inédita, ao isolar e analisar os cardiomiócitos (as células do coração), os pesquisadores notaram que elas ficaram mais rápidas para contrair. “No entanto, o órgão como um todo sofreu: o coração teve sua capacidade de bombear o sangue reduzida em 12%. Isso prova que células trabalhando mais rápido operam apenas como uma compensação biológica e não se traduzem em um coração saudável”, explica Alexa de Moraes.
Perigo oculto no ventrículo direito: Segundo os autores, a maioria dos estudos médicos foca no ventrículo esquerdo, o lado que impulsiona o sangue para o corpo. Desta vez, a equipe da UFV analisou os dois lados e descobriu que o ventrículo direito sofreu danos severos, incluindo uma dilatação de 33% no seu diâmetro — um risco silencioso que ameaça diretamente a circulação de sangue entre o coração e os pulmões.
Estresse oxidativo: A combinação de esforço físico pesado e anabolizantes gerou um alto nível de estresse oxidativo - um desgaste químico que danifica as estruturas celulares -, deteriorando funções vitais do coração.
Queda na performance: Ao contrário do que prega o senso comum das academias, os ganhos estéticos e o aumento de massa magra não se transformaram em vantagem esportiva. O grupo que utilizou a nandrolona apresentou uma tendência de queda no desempenho físico total, sugerindo que o prejuízo cardíaco sabota o rendimento do treino.
Os pesquisadores destacam que esses achados pré-clínicos são fundamentais, pois permitiram enxergar mecanismos moleculares profundos que seriam impossíveis de detectar em seres humanos sem a realização de exames altamente invasivos. O estudo serve, portanto, como um alerta antes que os danos se tornem irreversíveis nos usuários reais.
Embora os dados venham de modelos animais, as implicações práticas para humanos são claras. “Buscar o corpo ideal por meio de esteroides anabolizantes cobra um preço alto do sistema cardiovascular, mesmo que a pessoa mantenha uma rotina de treinos pesados. As mudanças prejudiciais na estrutura do coração e o aumento do estresse oxidativo acontecem de forma silenciosa, sem que o usuário perceba, deixando evidente que os ganhos no espelho não se traduzem em saúde ou desempenho real”, alerta o orientador do trabalho.
Os principais resultados foram publicados na revista científica Plos One.
Alexa de Moraes e Miguel Carneiro em apresentação do trabalhoInstitucional
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