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Estudo com participação da UFV defende proteção legal para áreas ao redor de terras indígenas na Amazônia

30/07/2026

Um artigo publicado esta semana na revista Nature Sustainability reúne pesquisadores brasileiros e internacionais e o líder indígena Beto Marubo para alertar sobre o avanço de ameaças socioambientais às Terras Indígenas (TI) da Amazônia. O trabalho destaca o Vale do Javari, no oeste do Amazonas, que conta com a maior concentração mundial conhecida de povos indígenas em isolamento voluntário. A região abriga cinco povos que mantêm contato com a sociedade ao redor (Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina), dois povos de contato recente (Korubo e Tsohóm-Djapá) e pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário. Demarcada em 2001, a região ganhou projeção internacional em 2022, por conta dos assassinatos do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, justamente pelos problemas relatados no artigo científico.

Foto: Gabriel de Oliveira & Erin Koster / Acervo Pesquisadores

Entre os coautores estão a professora Hewlley Acioli Imbuzeiro, do Programa de Pós-Graduação em Meteorologia Aplicada da UFV, e Erin Koster, doutoranda da University of South Alabama (EUA), que está atualmente como estudante visitante no Grupo de Pesquisa em Micrometeorologia (Micromet/DEA/UFV). De acordo com elas, o artigo revela que o enfraquecimento da fiscalização e alterações nas leis de proteção, somados às invasões associadas à mineração, ao tráfico de animais silvestres e à exploração ilegal de madeira e pesca, ameaçam a integridade dos povos indígenas e seus modos de vida.

Segundo os autores, mesmo com as ameaças, as terras indígenas da Amazônia prestam serviços ecossistêmicos e protegem os meios de subsistência, tanto de povos que interagem com grupos externos quanto daqueles que decidiram viver isolados em suas comunidades. “Esta região, no oeste do Amazonas, tem relevância internacional por abrigar conhecimentos ancestrais e biodiversidade ainda pouco conhecida em áreas de preservação. Por estar situada na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, está constantemente exposta a ameaças transnacionais e precisa de proteção efetiva do Estado brasileiro, em cooperação com os países vizinhos”, afirma a professora Hewlley.

Terra ameaçada

O artigo científico mostra que, enquanto a cobertura florestal permaneceu relativamente estável dentro do território demarcado, o desmatamento avançou em seu entorno. Em 2022, a perda florestal total na zona cumulativa que se estende por até 200 quilômetros ao redor da Terra Indígena Vale do Javari foi aproximadamente 187,5 vezes maior que a registrada dentro da TI.

Como essas áreas têm dimensões diferentes, o trabalho também apresenta uma comparação proporcional: dados do MapBiomas indicam que a taxa média anual de desmatamento foi 33,4 vezes maior na zona de 200 km do que dentro da Terra Indígena. Embora o desmatamento anual no entorno tenha diminuído em 2023 e 2024, permaneceu bem acima dos níveis observados na década anterior. Por isso, o artigo aponta que a proteção legal para zonas de amortecimento, aplicada para limitar as atividades humanas nas proximidades das unidades de conservação em geral — parques nacionais e reservas extrativistas —, deve ser estendida também às terras indígenas para protegê-las de atividades ilegais que ameaçam a integridade dos povos indígenas e seus modos de vida.

Para os autores, a criação de proteção legal para as zonas de amortecimento deve ser acompanhada do fortalecimento da fiscalização e do combate à ocupação irregular de terras públicas, especialmente nas áreas vizinhas às terras indígenas. No Vale do Javari, a prioridade é conter novas ocupações e atividades ilegais, como caça comercial e pesca predatória. “Coibir a ocupação irregular, inclusive removendo os ocupantes ilegais, é importante em toda a Amazônia brasileira. Como há limitações de orçamento, pessoal e capacidade de fiscalização, essa atuação deve ter prioridade nas áreas próximas às terras indígenas”, afirma Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e um dos autores do artigo.

Ainda de acordo com os autores, essa proteção é especialmente importante para os povos em isolamento voluntário, que enfrentam maiores dificuldades para comunicar invasões às autoridades, à sociedade civil e à imprensa.

A professora Hewlley ( à esquerda) e a estudante Erin Koster são coautoras do artigo científico

Internacionalização

Segundo a professora Hewlley, o artigo mostra a relevância da pós-graduação da UFV em parcerias internacionais e na ramificação das suas pesquisas em território nacional, como é o caso da Amazônia. Ela cita o exemplo de Erin Koster, que está como doutoranda visitante na UFV, o que foi possível a partir de uma visita do professor Gabriel de Oliveira, dos Estados Unidos, no início do ano, ao Micromet/DEA/UFV. “São parcerias importantes que acontecem a partir do programa de fortalecimento da internacionalização da Universidade”, afirma a professora.