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11/11/2020
Os pesquisadores usaram a técnica de pinça ótica para avaliar modificações no DNA
Como a física pode contribuir para o debate sobre o uso da hidroxicloroquina e outros fármacos para tratamento de doenças como a Covid-19? Físicos entendem de medicamentos? Sim, pelo menos no que diz respeito às interações moleculares envolvidas no mecanismo de ação desses compostos. Três pesquisadores que atuam na área interdisciplinar entre a Física, Química e a Biologia acabam de publicar um trabalho que avaliou a interação da Hidroxicloroquina com a molécula de DNA. A conclusão é que o remédio precisa ser usado com ainda mais cuidado do que se pensava até agora, independentemente da indicação.
A pesquisa foi publicada no The Journal Physical Chemistry Letters, um dos periódicos de mais alto impacto na área. Os autores são o professor Márcio Rocha, do Departamento de Física da UFV, o doutorando Tiago Moura, do Programa de Pós-Graduação em Física da UFV e Raniella Bazoni, ex-aluna de doutorado do Programa e atualmente professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Os autores esclarecem que o trabalho publicado não avaliou a eficiência do fármaco para tratamento de nenhuma doença especificamente, mas sim o potencial que o medicamento tem de interagir com o DNA e, por isso, causar efeitos colaterais significativos.
Para entender os detalhes moleculares da interação, os pesquisadores usaram uma técnica chamada de pinça ótica. Usando equipamentos de ótica com altíssimas precisão e sensibilidade e em escala, eles manipulam moléculas de DNA com um laser e as colocam em uma solução com o fármaco a ser estudado, no caso a hidroxicloroquina. Utilizando modelos e protocolos já estabelecidos, eles avaliam como esta substância interage e modifica a estrutura local da dupla-hélice a partir de mudanças nas propriedades mecânicas do DNA. O trabalho foi realizado no Laboratório de Física Biológica do Departamento de Física da UFV.
Mas por que avaliar a hidroxicloroquina? Márcio conta que a ideia da pesquisa surgiu em meados de abril, logo que a substância saiu das bulas farmacêuticas para pautar a mídia sobre tratamentos para a Covid-19. A pesquisa foi feita em dois meses e, muito rapidamente, os resultados foram publicados no artigo científico. “Nós precisamos de ciência para embasar decisões e esta técnica que usamos é bastante segura para oferecer resultados”, disse o pesquisador.
O estudo é inédito. Segundo Márcio Rocha, ainda não havia, na literatura especializada internacional, “nenhum estudo com nível de detalhes semelhante ao que realizamos na UFV, sobre a interação molecular da hidroxicloroquina, um fármaco que já apresenta menos efeitos colaterais que a cloroquina.”
Resultados da pesquisa
Os pesquisadores concluíram que sim, a hidroxicloroquina interage com o DNA e de duas maneiras, dependendo da dosagem. Em baixas concentrações, se liga à fenda menor da molécula. Em doses mais altas, ela deixa de se comportar como um ligante de fenda e passa a intercalar entre pares de base do DNA. “Achamos que a interação da hidroxicloroquina é muito forte, o que é preocupante, porque também é forte o potencial de causar diversos efeitos colaterais ao organismo”, afirmou o professor Márcio.
A pesquisadora Raniella Bazoni esclarece que “todo medicamento deve ser utilizado com cautela, porém no caso de fármacos que interagem fortemente com ácidos nucleicos, a preocupação e o cuidado devem ser redobrados”. Os pesquisadores explicam que há muitos medicamentos que interagem com a molécula de DNA, principalmente os quimioterápicos indicados para tratamento de cânceres. Estes fármacos especializados precisam ser avaliados com cuidado devido ao grande potencial de efeitos secundários. Caracterizar estes efeitos, porém, não foi um objetivo do trabalho publicado, mas a informação sobre os riscos potenciais abre novas frentes para futuras pesquisas bioquímicas. No Brasil, até a polêmica indicação para tratamento da Covid-19, a hidroxicloroquina era vendida facilmente em farmácias, com receituário simples. Desde abril, devido à grande procura, a venda já passou a exigir receituário controlado.
Os resultados do trabalho também confirmam a eficiência da técnica de pinça ótica para avaliação da ação de medicamentos em nível molecular. A tecnologia é bastante difundida internacionalmente, mas, no Brasil, o grupo da UFV atualmente é o único que a utiliza para caracterizar interações envolvendo ácidos nucleicos e fármacos. “Há muitos remédios antigos e muito usados que nunca foram testados em nível de interações moleculares. O uso eficiente desta técnica pode sugerir modificações na utilização destes medicamentos e dar mais segurança a médicos e usuários”, concluiu Márcio Rocha.
Léa Medeiros
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