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Relação entre mudanças climáticas e migração no Nordeste é tema de tese agraciada pela Capes

18/10/2020

Linda (ao centro) durante período sanduíche no IIASA, na Áustria

As mudanças climáticas afetam o setor agrícola, assim como interferem na subsistência, na geração de renda e na capacidade da população permanecer no meio rural. Ao investigar como esta relação impactou no passado e pode impactar no futuro da Região Nordeste do Brasil é que o trabalho de doutorado de Linda Márcia Mendes Delazeri recebeu uma das menções honrosas do Prêmio Capes de Tese de 2020. A pesquisa, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada e orientada pelo professor do Departamento de Economia Rural Dênis Antônio da Cunha, é significativa no âmbito das políticas públicas.

Linda buscou entender a influência das mudanças climáticas na migração do meio rural para o urbano no Nordeste, já que as altas temperaturas e a irregularidade temporal e espacial das chuvas na Região podem limitar a agricultura, vulnerabilizar aqueles que dependem dela para viver e modificar seus vínculos com o campo, desencadeando uma série de consequências socioeconômicas. O foco no Nordeste, de acordo com a pesquisadora, é devido justamente à reunião das características da localização geográfica com a maior porcentagem de pessoas vivendo no meio rural do país.

Ao combinar dados sobre climatologia, demografia e economia, entre outros – principalmente relacionados aos impactos sofridos pelo setor agrícola nas últimas décadas do século XX –, Linda concluiu que a intensidade de tal influência está vinculada principalmente aos aspectos de renda e educação encontrados na Região. Em uma primeira etapa, a pesquisadora analisou as microrregiões nordestinas conforme os níveis econômicos e observou que os agricultores que vivem em áreas rurais mais pobres migram menos, porque as mudanças climáticas acentuam as restrições financeiras e as dificuldades de arcar com os custos do deslocamento. Aqueles que vivem em áreas rurais com restrições financeiras menores, por sua vez, migram mais em resposta às alterações das condições do clima. No entanto, esta dinâmica também depende dos níveis educacionais correlacionados.

Na segunda etapa da análise, Linda acrescentou a variável da educação e notou que os mais ricos e escolarizados têm uma condição melhor de se adaptar às mudanças climáticas, pois acessam informações sobre práticas agrícolas aprimoradas e tecnologias, por exemplo, e conseguem implementá-las. Então, sentem menos necessidade de migrar. Já os mais ricos e menos escolarizados migram mais, pois têm uma condição menor de se adaptar, mas conseguem arcar com os custos do deslocamento. Os mais pobres e com níveis educacionais mais baixos enfrentam as maiores limitações para migrar.

Assim, diante do panorama agrícola brasileiro heterogêneo, o trabalho de doutorado demonstra como as mudanças climáticas podem criar “uma espécie de ‘armadilha da pobreza’”, como Dênis esclarece. Os agricultores mais pobres são os mais prejudicados e, para eles, a migração é a última estratégia contra a escassez: “então, não conseguirão nem migrar, ficando em uma situação de total desalento”. Estas informações sobre o Brasil são inéditas, o professor informa.

Projeções

Somando esta análise aos cenários climáticos e socioeconômicos possíveis no futuro, Linda realizou projeções populacionais para o meio rural do Nordeste, o que também diferenciou a tese. “A relação entre os efeitos das mudanças climáticas e as migrações é bastante discutida na literatura, sobretudo a internacional. Entretanto, avaliações sobre os movimentos migratórios esperados para o futuro, sob diferentes cenários, ainda são incipientes”.

Os resultados obtidos são relevantes para o desenvolvimento das políticas públicas. De acordo com a pesquisadora, a projeção em cenários pessimistas é que uma parcela cada vez maior dos agricultores sofrerá os impactos das mudanças climáticas. Isto indica que, por um lado, as políticas públicas deverão mitigar os efeitos do clima na produção agrícola, reduzindo a necessidade da migração. Já em circunstâncias de mudanças climáticas severas, nas quais o deslocamento seja imprescindível, as políticas públicas deverão possibilitar que ele seja implementado por todos, sem distinção de níveis econômicos e educacionais. “Neste caso, as políticas deverão garantir que as populações, sobretudo as com maiores restrições financeiras e educacionais, não fiquem presas em situações de intensa e persistente pobreza”, conforme Linda. O investimento em educação, segundo ela, seria uma das principais contribuições.

Mais um ponto da tese que merece ser destacado é que, ao realizar as projeções, Linda adaptou os Shared Socioeconomic Pathways (SSPs) para o contexto das microrregiões nordestinas. Os SSPs correspondem a dados socioeconômicos muito conhecidos e utilizados para presumir tendências globais e trajetórias alternativas para o desenvolvimento humano até o fim do século. A adaptação para um contexto menor e especificamente para o contexto da Região brasileira também é um ineditismo, conquistado com os conhecimentos obtidos pela pesquisadora durante um período sanduíche no Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (com a sigla em inglês IIASA), localizado na Áustria. O IIASA é responsável pelo desenvolvimento do conceito de SSPs e, para Linda, a multidisciplinaridade verificada com a utilização dos seus dados e metodologias, incomuns em análises estritamente econômicas, contribuiu para que o trabalho de doutorado fosse agraciado com a menção honrosa.

Conquista

Linda considera a premiação uma honra e uma afirmação da importância da pesquisa que realizou. A UFV, que fez parte da sua história desde 2005, quando ingressou no Colégio de Aplicação - Cap-Coluni, até 2019, quando defendeu seu trabalho de doutorado, também teve um papel fundamental nesta conquista: “me propiciou condições de adquirir conhecimento e educação de nível médio e superior de excelência”.

Compartilhando com satisfação o reconhecimento, Dênis afirma que a premiação reforçou a vontade de continuar trabalhando de modo colaborativo e interdisciplinar: “a pesquisa teve o apoio de muitos pesquisadores, de diferentes áreas e instituições. Tomara que essa menção honrosa abra portas para outras colaborações”.

A tese Ensaios sobre migração rural-urbana e mudanças climáticas no Nordeste brasileiro, que também foi agraciada como a melhor tese de doutorado em Economia Rural de 2020, pela Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober), está disponível no Repositório Institucional Locus.

O trabalho recebeu investimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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