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Pesquisa mostra que Floresta Amazônica de pé é bom negócio para o Brasil

30/08/2019

Enquanto o mundo todo está com os olhos voltados para as queimadas na Floresta Amazônia, um artigo de pesquisadores brasileiros publicado na Nature Sustainability, uma das revistas científicas de maior prestígio mundial, oferece ao país mais um bom motivo para mantê-la de pé. O estudo quantificou uma parte dos serviços ecossistêmicos prestados pela Floresta e indicou quantos dólares o Brasil pode perder a cada quilômetro quadrado desmatado, caso estes serviços não sejam mais prestados. E trata-se de muito, muito dinheiro.

Os ecossistemas naturais prestam, gratuitamente, vários tipos de serviços ecossistêmicos, dos quais os humanos se beneficiam. Embora alguns desses serviços, como a conservação da biodiversidade, não possam ser quantificados economicamente, outros têm um valor financeiro considerável, como, por exemplo, o controle de erosão, a prevenção de enchentes, a regulação climática e o extrativismo de produtos naturais (borracha, madeira, frutas e sementes).

O artigo aponta que, definitivamente, não vale a pena avançar sobre a Amazônia. O ganho financeiro em área desmatada para agricultura e pecuária não compensa a perda da riqueza que a Floresta, de pé, pode gerar ao país com os muitos serviços ecossistêmicos que gera. Considerando apenas o que a Amazônia faz pelo equilíbrio de chuvas no Brasil são mais de 420 milhões de dólares anuais, o que equivale a 35% do total da rentabilidade líquida da soja em Mato Grosso. Analisando esta conta ao contrário significa dizer que, com o desmatamento, um único estado do país perderia, por ano em produtividade agrícola, meio bilhão de dólares.

Pesquisa verde e amarela

Dos 13 autores do artigo publicado no final do ano passado, nove são brasileiros. “Os experimentos previstos neste estudo foram todos executados por equipes brasileiras, baseadas principalmente na UFV e na UFMG, mostrando a relevância de pesquisadores brasileiros nesta temática, diz Gabrielle Pires. Ela e Marcos Heil Costa, ambos professores do Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa, são co-autores deste que é o trabalho mais detalhado sobre precificação dos serviços ecossistêmicos fornecidos pela Floresta Amazônica já realizado até agora em todo o mundo. O estudo foi realizado durante três anos e financiado pelo Banco Mundial.

Os professores explicam que a pesquisa quantificou apenas uma fração do valor total da Floresta, ou seja, quatro dos 17 serviços ecossistêmicos atualmente documentados. Serviços como a produção de castanha-do-pará e de matéria prima a partir de madeira e borracha, mitigação do efeito estufa por meio do estoque de carbono, a regulação do clima para o agronegócio e a geração de energia hidroelétrica foram expressos com detalhes. ”Nós precificamos cada quilômetro quadrado dos seis milhões de hectares da Pan-Amazônia, mas ainda assim, o trabalho foi conservador. Alguns serviços como o turismo e a imensa biodiversidade contida na Floresta, por exemplo, não foram contabilizados por serem potenciais ainda desconhecidos em sua totalidade” comenta Marcos Heil Costa.

Somando o valor dos serviços ambientais, os pesquisadores calcularam que a Floresta Amazônica, de pé, gera uma economia anual de US$ 8,2 bilhões ao ano para o Brasil. Os dados estão disponíveis num site aberto ao público. A soma dos serviços ambientais, segundo os autores, pode chegar em algumas áreas, a US$ 737 por hectare por ano, um valor muito superior à receita bruta gerada pela pecuária de baixa produtividade na Amazônia, normalmente inferior a US$400 por ha por ano. ”O valor calculado pode ser perdido anualmente, caso aquele trecho de floresta seja removido. É o que perdemos ao desmatar a floresta”, ressalta Gabrielle Pires.

Os pesquisadores da UFV também analisaram as perdas que o desmatamento traz à cultura da soja, à pecuária e à geração de energia elétrica, bem como a contribuição da Amazônia para a regulação climática em todo o Brasil e na América do Sul. “Quanto mais próximo à área desmatada, maior a influência do desmatamento sobre o regime de chuvas, mas as consequências são continentais” explica Gabrielle.

Sem floresta, sem chuva, sem dupla safra

Segundo Marcos Heil, a remoção da Floresta reduz a duração da estação chuvosa, sobretudo em áreas do arco do desmatamento, formado pelos estados do Mato Grosso, Pará, Rondônia, e parte do MATOPIBA, região adjacente à Amazônia formada por parte dos estados de Maranhão Tocantins, Piauí e Bahia: “Hoje os produtores cultivam duas safras anuais, uma de soja e outra normalmente de milho. O desmatamento encurta a estação chuvosa e coloca em risco a dupla safra, comprometendo a produtividade e a produção total”. No caso da pecuária o prejuízo pode ser ainda maior. “Sendo uma atividade tipicamente de baixo uso de tecnologia e baixa rentabilidade, qualquer perda de receita pode significar a troca de um pequeno lucro por um consistente prejuízo!

O trabalho conclui que avançar sobre a floresta para obter mais espaço para o plantio pode ser uma ilusão desastrosa. “O ganho em espaço para a agropecuária não compensa as perdas econômicas causadas pela perda de Floresta. É ela que garante a constância do regime de chuvas e viabiliza muitas atividades econômicas que dependem do clima no Brasil, inclusive a agricultura intensiva de Mato Grosso e MATOPIBA”, diz Heil. Para os pesquisadores, é preferível que a agricultura avance sobre as áreas de pastagem degradada da própria Amazônia e do Brasil Central, que já foram desmatadas e, por causa do manejo inadequado, hoje têm baixíssima produtividade.

O estudo usou dados de censo agropecuário, outros coletados em campo, preços de commodities agrícolas, sensoriamento remoto e modelagem para permitir diversas simulações de cenários de desmatamento. Os resultados são apresentados pela ferramenta “Desmatamento e Chuva”na plataforma do Grupo de Pesquisa em Interação Atmosfera- Biosfera  e pela plataforma AmazonEco Services, do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG . As plataformas são interativas e permitem ao usuário comum fazer simulações de perdas financeiras para cada área e para todos os serviços ambientais analisados pela pesquisa.

Ainda para o professor Heil, o mapeamento dos valores monetários dos serviços ecossistêmicos é essencial para a elaboração de estratégias de conservação o estabelecimento de políticas públicas de preservação e uso do solo na Amazônia, pois traz um incentivo à conciliação entre a conservação ambiental e o agronegócio.

 

Léa Medeiros

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