Patrícia Santos Freitas*
Arlindo Luiz Silva Paiva, mais novo de 13 irmãos, dono de bar, pai de dois filhos, figura conhecida pelos estudantes e frequentadores de seu bar. Mas não por esse nome. Por todos na cidade, ele é conhecido apenas como Capelão.
O apelido veio de seu pai, antigo funcionário público da Universidade Federal de Viçosa, muito religioso. Quando não estava no trabalho, estava rezando. Às vezes, em alguns dias, ia à missa na parte da manhã e na parte da tarde. Ia até a capela da UFV para rezar várias vezes ao dia: antes do começar a trabalhar, antes e depois do almoço, e após o horário do serviço, para agradecer pelo dia que teve. Não foi a toa que começaram a chamar o seu pai de Capelão. A partir de então, Arlindo Luiz e seus irmãos também tiveram o apelido popularmente "incorporado" ao nome: Paulinho Capelão, Toninho Capelão, João Capelão, Luizinho Capelão e por aí vai...
Seu nome de batismo havia sido escolhido porque sua mãe, com o sonho de ter um filho que fosse padre, resolveu homenagear o Padre Arlindo Vieira, que celebrava missas em Diogo de Vasconcelos (MG), na esperança de que seu filho também se tornasse um. Mas a ironia do destino quis que Arlindo Luiz Paiva seguisse a vida como dono de bar. Ele tinha a consciência de que seu nome não era nada bonito. Por isso, e como sempre teve orgulho de seu pai, sempre gostou de ser chamado por Capelão, se sentido honrado por isso.
E a partir de então, o apelido de Capelão o vem acompanhado desde criança até hoje. É como é conhecido na cidade, é como nomeou o seu primeiro bar e continua sendo, e é também como colocou o nome do meio de seus dois filhos. Contra a vontade de sua esposa, registrou escondido os dois meninos com os nomes de Luiz Paulo Capelão Bitencourt Paiva e Marcos Paulo Capelão Bitencourt Paiva. Os dois gostam bastante de ter o apelido do pai e do avô incorporado ao nome e, quando eles estão no bar junto com o pai, é bastante comum ouvir os clientes chamando-os por "Capelãozinho".
*
A infância de Capelão não foi fácil. Ele tinha muita dificuldade de falar, devido ao seu problema de língua presa. Dificilmente conseguiam o entender quando era criança e sempre foi motivo de chacota entre seus amigos do bairro. Quando era bem novo, nos primeiros anos de escola, uma professora conseguiu um médico para que ele fizesse uma cirurgia de correção na língua. Mas seus pais não concordaram, com um medo, hoje perceptivelmente maluco, de uma conspiração, pensando que usariam seu filho para fazer pesquisas médicas.
Com a dificuldade de falar, vinha a dificuldade de aprender na escola. O seu problema influenciou muito para que ele reprovasse quatro vezes na primeira série, uma vez na segunda, duas na terceira e mais uma na quarta. Conseguiu se formar no primário, com oito anos de atraso, porque seus professores ficaram com dó. Não indo muito bem também na quinta série e feliz por ter finalmente conseguido se formar na quarta série, como já não era mais criança, Capelão decidiu correr atrás da operação para corrigir seu problema. De novo, graças aos contatos de seus professores e diretora da escola, conseguiu um médico. A operação foi simples e, embora ainda seja perceptível um pouco da língua presa, a melhora foi enorme.
Mesmo com todos esses problemas graves, a má dicção conseguiu ajudou em um aspecto, na sua infância. Por causa da família grande, começou a trabalhar aos 9 anos para ajudar na renda de casa, vendendo picolé nas ruas. Ele não conseguia falar direito e não sabia contar o troco, então a sua irmã o seguia de longe, sinalizando a quantidade que ele teria que devolver para as pessoas. Apesar disso tudo, ele conseguia vender muito, em troca de ficar conversando por bastante tempo com as pessoas, para que elas pudessem rir do seu jeito de falar.
Outra pequena dificuldade de sua infância foi aceitar a data do seu aniversário. Nascido no dia seguinte ao Natal do ano de 1970, Capelão sempre se sentiu prejudicado por isso. Apesar da família grande e do pouco dinheiro da família, sempre que era aniversário de algum de seus 12 irmãos, seus pais faziam questão de fazer uma festinha com alguma comida melhor, como frango, maionese e marmelada ou goiabada de sobremesa e queijo para acompanhar. Mas sendo seu aniversário no dia depois do Natal, que também tinha muita fartura, Capelão sempre se sentiu frustrado e revoltado com isso porque, "além de falar errado e ser o mais bobo de todos os irmãos, não tinha aniversário, porque só comia resto".
Apesar desses contratempos quando pequeno, Capelão não tem muito mais o que reclamar. Ele aprendeu a conviver com seus problemas, com as gozações pela língua presa, com a falta de aniversário e qualquer outro problema que tenha surgido na vida dele. Em suas próprias palavras, a sua vida foi uma piada: "o pessoal rindo de mim e eu rindo deles".
*
A carreira de dono de bar foi uma jornada longa, na qual ele começou trabalhando como ambulante. Festa de Santa Rita em Viçosa, conseguiu uma chapa de churrasqueira emprestada e comprou fiado cinco quilos de carne e cinco litros de pinga. E foi vender churrasquinho na praça. Como era conhecido, o retorno foi bom. Duas semanas depois, contra a vontade do pai, foi trabalhar em Ervália, no aniversário da cidade. De novo, chapa da churrasqueira emprestada, cinco quilos de carne e cinco litros de pinga fiados. De ônibus. Chegando lá, arrumou uma mesinha emprestada e, na praça, vendeu seus churrasquinhos e pingas. No dia seguinte, a mesma coisa. De vez em quando, dava umas porradas na chapa. E ali começou o seu sucesso.
Normalmente, durante o dia, trabalhava como servente em obras. Foi para Guaraciaba e, lá, quando juntou um pouco de dinheiro, comprou uma barraca bem precária, de lona preta, para vender suas coisas. Lá mesmo, junto com seus churrasquinhos, começou a vender, também, caipfrutas, que estavam em alta na época na cidade. Trouxe a caipfruta para Viçosa e seu pequeno negócio de vendedor ambulante em festas e eventos foi crescendo cada vez mais. Seu cunhado comprou-lhe uma barraca melhor, de lona verde e branca. Continuou trabalhando como servente e, a cada vez que tinha uma festa, em Viçosa ou em alguma cidade próxima, lá estava ele, vendendo churrasquinho, bebidas e dando socos na chapa emprestada.
Um dia qualquer do ano de 1989, ele decidiu: ia para o Espírito Santo vender suas coisas na praia. Seu pai, condescendente, sem ter argumentos ou motivos para contrariar o filho, lhe disse:
-Já que eu não tenho dinheiro pra te sustentar no seu negócio aqui, eu não vou falar não. Você vai e segue a sua vida.
Comprou a passagem e se organizou para a viagem. Tudo teria sido totalmente diferente na vida do Capelão, não fosse a sua mãe. No dia da partida, ela estava aos prantos. Comovido, seu pai voltou atrás e lhe fez um apelo:
-Meu filho, eu não quero que você vá. Lá você vai trabalhar como ambulante, sem saber para onde vai, de onde vem. Eu não aceito você ir, não. Você vai trabalhar aqui em Viçosa, não aceito que você saia daqui.
Considerando a família a coisa mais importante do mundo para ele, como faz até hoje, Capelão não teve outra escolha a não ser respeitar a vontade de seu pai, perder a passagem que havia comprado e mudar seus planos de última hora. Mas, para a sua surpresa, seu pai não havia terminado:
-Eu não quero que você vá, mas eu tenho umas economias. Eu te dou esse dinheiro e você vai montar um bar para você, aqui em Viçosa mesmo. Você já é maior de idade, não é muita coisa, mas pelo menos não vai precisar sair daqui.
E foi aí que teve início concreto a história do Bar Capelão, meio inesperadamente. Com esse dinheiro que ganhou do pai, conseguiu um ótimo negócio, bem abaixo do preço, em um trailer velho e quebrado em frente às Quatro Pilastras. E foi lá que todos começaram a conhecer o jeito espontâneo, divertido e surpreendente, com ele brincando, dando pancadas nas coisas subitamente, pulando na represa da universidade quando estava calor e por aí vai. Todo o tipo de loucura que a gente o vê fazendo até hoje e que agrada e diverte tanto os clientes.
Ele começou pequeno, vendendo cerveja barata e sem nem mesmo ter um banheiro que os clientes pudessem usar. Aos poucos, foi melhorando: construiu um banheiro, para a felicidade de todos que frequentavam seu bar e que, de tanta gente, aos domingos, fechavam a principal avenida da cidade.
Foi mais ou menos nessa época, quando estava começando a montar o seu bar no precário trailer em frente as Quatro Pilastras, que conheceu a sua esposa, em uma festa de aniversário da cidade em Viçosa. Maria Imaculada Bitencourt havia vindo de Teixeiras, sua cidade natal, para a festa. Lá, ela e o Capelão se conheceram e ficaram pela primeira vez. A partir daí eles começaram a se encontrar às vezes, mas ainda não tinham nada sério. Com o passar do tempo e se encontrando com cada vez mais frequência, as coisas ficaram mais sérias e, cerca de três anos depois, eles se casaram.
O casamento aconteceu no dia 8 de outubro de 1994, em uma igreja de Teixeiras, cidade da noiva. Cada um dos noivos preparou uma recepção para a sua família em sua própria cidade. Maria Imaculada já estava grávida do primeiro filho, Luiz Paulo, durante o casamento. O segundo, Marcos Paulo, veio alguns anos depois, dessa vez com planejamento.
Depois de casado e já com o primeiro filho, sem ter porque e sem esperar, um dia qualquer o dono do ponto em que Capelão ficou trabalhando por anos o pediu de volta. Não tendo outras opções, teve que mudar o seu bar de lugar. Levou o trailer para onde é o seu atual bar, na Avenida Padre Serafim, na altura do cemitério. Por causa da localização um pouco mais afastada da universidade e em um lugar um pouco mais perigoso, o Capelão foi abandonado pelos estudantes, que costumavam beber em seu trailer em frente as Quatro Pilastras. Com a queda da freguesia, também foi abandonado pelos próprios funcionários.
O local começou a ser frequentado apenas por "vagabundos". As pessoas que costumavam ir ao bar no local antigo, passaram a ter medo de ir ao novo lugar. Aos poucos, o Capelão começou a mostrar que não era bem assim que ele queria as coisas. Começou a tentar cortar as pessoas que ele, nas palavras dele, considerava "mau elemento", mas não estava tendo muitos resultados. Chegou ao ponto de sua esposa pedir para que ele largasse o bar e fosse fazer outra coisa, tão crítica que estava a situação de seus frequentadores. Mas como não tinha mais opções, cuidar de bar era a única coisa que ele sabia fazer bem na vida, Capelão insistiu. Devagarzinho ele foi melhorando as condições do bar, aumentando o local e pedindo para que as pessoas que ele não considerava "gente boa" saíssem.
Certo dia, enquanto acontecia uma festa de estudantes em seu bar, houve um desentendimento entre o Capelão e o chamado "pessoal mau elemento". Estes chegaram ao bar pedindo para que mudassem a música de rock, que era o que os estudantes estavam ouvindo, para pagode. Intimidados, os estudantes concordaram e pediram ao Capelão que mudasse. Mas ele, quase falindo, já revoltado e sem paciência para esse tipo de cliente, se recusou:
-Não. Quem manda aqui sou eu! Eu quero que toque rock, então vai ser rock.
Os que queriam pagode não aceitaram a petulância e o ameaçaram, avisando-o que iriam lhe fazer uma "surpresa" no dia seguinte. Sem medo, o Capelão respondeu que, se era assim, também teria uma surpresa para eles no dia seguinte.
Dito e feito. Na noite seguinte, Capelão havia aumentado os preços de todos os seus produtos: bebidas, comidas, cigarros. E, junto com os preços, também foi aumentando a qualidade de tudo. A partir daí, os frequentadores indesejados, insatisfeitos com os novos preços, e com o Capelão se recusando a reduzi-los, mesmo sob protestos deles, começaram a rarear. Na mesma proporção, com o aumento da qualidade dos produtos, as pessoas mais "gente boa" começaram a aparecer cada vez mais em seu bar e foi assim que ele conseguiu selecionar a clientela.
Atualmente, depois de tantas transformações e desafios, o bar se estabeleceu bem e tem uma clientela mais ou menos fixa, sendo a maior parte dela formada por estudantes e torcedores do Clube Atlético Mineiro. Essa última parcela porque o bar se tornou uma espécie de espaço oficial aonde esses torcedores vão para assistir aos jogos de seu time, que são sempre transmitidos lá, sem exceção.
Depois de 19 anos atendendo em seu trailer, Capelão continua utilizando-o, mas hoje ele está chumbado no lado esquerdo do bar e, com uma espécie de "puxadinho" de alvenaria em seu fundo, funciona como cozinha e balcão de atendimento. A entrada do bar é, hoje, o que já foi, claramente, uma entrada de casa, com um portão pequeno e uma entrada de garagem. Dividido em dois ambientes, o teto da parte da frente do bar é feito de vários materiais diferentes, com vários desníveis. Próximo ao balcão, o teto é somente a aba que, antigamente, costumava fechar as janelas do trailer. Um pouco mais ao lado, no centro do bar, o teto é bastante alto, feito de placas de metal. E, à direta, bem próximo à entrada da garagem, um teto um pouco mais baixo, de madeira.
Em contraste com a tosquidão do ambiente, ainda na parte da frente, existe uma enorme televisão de plasma com sinal em HD (high definition, alta definição), muito utilizada para a transmissão de jogos do Atlético Mineiro e para tocar músicas. Também existem alguns objetos diferentes, como várias placas "engraçadas", escudos do time da casa, um barril de madeira com cachaça, banners com preços falsos de cerveja "para enganar os clientes", um mural com várias fotos de clientes e, o mais curioso de tudo, em dias de jogos do Galo, um galo de verdade andando pelo bar!
Para se chegar até a parte de trás do bar, que frequentemente é utilizada para festas fechadas e pequenas, é possível escolher entre duas portas separadas por um banheiro que está sempre fechado. Na parte central do salão, existe uma televisão suspensa e um telão com projetor, para jogos especiais, colocados em lados opostos. Do lado esquerdo, há entulho, cadeiras e mesas quebradas e pedaços de um antigo teto, um fogão a lenha inutilizado, uma churrasqueira de alvenaria que pode ser alugada nessas festas que acontecem lá, um freezer e alguns quadros na parede. Do outro lado, duas mesas de sinuca e os banheiros que ficam abertos para uso dos clientes. Antigamente, logo que o Capelão levou seu trailer para lá e até poucos anos atrás, esse local era um quintal propriamente dito, com animais e mato a céu aberto. Hoje, é coberto por um forro cheio de goteiras.
*Estudante do 7º Semestre de Comunicação Social/Jornalismo da UFV |