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Seca agrava incêndios florestais

20/10/2017

O meio ambiente e a saúde das pessoas são diretamente afetados pelos incêndios

Sabe aquela história de que a culpa dos incêndios pode ser de uma binga de cigarro ou de latinhas de cerveja jogados na beira da estrada? Não cola. Pelo menos não para quem conhece a ciência do fogo. Sim, o fogo tem uma lógica, um padrão de comportamento facilmente identificável por quem o conhece. É possível saber onde começou, para onde vai e como ser contido. É dominando esta ciência que pesquisadores podem afirmar: pelo menos 99% dos incêndios que estão devastando o Brasil nos últimos meses são provocados por pessoas que desconhecem as consequências prejudiciais das queimas ou só querem mesmo ver o fogo queimar.

Com a seca prolongada do ano, basta percorrer algumas estradas brasileiras para ver uma paisagem lunar. Os pesquisadores afirmam que grande parte dos incêndios começa ali mesmo, na beira das estradas. “Muitas pessoas simplesmente gostam de atear fogo em qualquer coisa. São piromaníacos! Cigarro, vidro e outros descartes jogados no solo seco e expostos ao sol não têm energia suficiente para provocar uma queimada, porque precisam ter flama para liberar uma combustão”, explica o professor Flávio Justino, da área de Meteorologia do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da UFV.  O problema é que as consequências são terríveis para o meio ambiente, a agricultura, a economia e a saúde de pessoas e animais.

A frequência dos incêndios dos últimos meses no Brasil está na média dos anos anteriores, mas a seca prolongada agrava a situação. E é ai que mora outra consequência ruim do fogo irresponsável, provocado também por alguns produtores rurais. Atear fogo no pasto para limpar o terreno e propiciar o crescimento rápido de pastagens é uma prática muito antiga no Brasil e já era usada pelos índios. É a alternativa mais acessível de manejo agrícola para o pequeno agricultor descapitalizado e pouco tecnificado, mas, para Reinaldo Cantarutti, professor da área de Fertilidade e Nutrição de Plantas do Departamento de Solos da UFV, as queimadas só causam prejuízos a longo prazo. “A requeima frequente e rotineira como é feita no Brasil expõe o solo, provoca erosões e perda de fertilidade, prejudicando até mesmo a rebrota desejada pelos agricultores. Não é uma prática recomendável, além de ser perigosa, inclusive para o gado e para as áreas vizinhas que não se prepararam para lidar com a queimada”.

Estes produtores rurais que têm o hábito de fazer queimadas anuais contam com a chuva para ajudar a apagar o fogo e promover o crescimento das pastagens. Só que, nos últimos anos, a chuva, que costumava chegar em setembro, está atrasando e o fogo pode piorar o cenário da seca. Segundo o professor Flávio, pesquisas indicam que onde tem mais incêndios, há menos chuva: “a fuligem eleva o vapor d’água para a camada superior da atmosfera, inibindo a precipitação. Nós temos observado isso nas regiões da Amazônia, onde as queimadas são mais frequentes o clima fica mais seco”. Ele explica ainda que os incêndios são também uma  fonte importante de emissão de gases do efeito estufa no Brasil. 

Incêndios criminosos e a falta de fiscalização

Há ainda o inconveniente legal. Provocar incêndios é crime no Brasil, mesmo que seja na propriedade privada. Para fazer uma queima controlada, é preciso ter autorização de órgãos florestais, no caso de Minas Gerais, o Instituto Estadual de Florestas (IEF). Na solicitação, é preciso informar objetivos, mapa de declividade do terreno, dados atmosféricos e mecanismos de segurança. Sem técnica, uma queimada pode virar um incêndio com danos incontroláveis. E sem autorização, o produtor que provocou a queima pode ser multado e preso.

“Todo incêndio é ruim, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Definitivamente fogo não é para amadores”, diz Fillipe Tamiozzo Torres, professor da área de Incêndios Florestais no Departamento de Engenharia Florestal da UFV. Ele explica que a autorização só é dada para queimas controladas que podem ser usadas, por exemplo, para evitar que incêndios atravessem estradas, cheguem a edificações ou a grandes plantios florestais. O fogo também pode ser autorizado como método para controlar plantas invasoras no manejo agrícola, desde que não queime o solo e provoque a perda de fertilidade citada pelo professor Cantarutti. Para plantios florestais e unidades de conservação, há regras específicas para autorização de queimas. “Em todos os casos é preciso controlar a temperatura, o tempo do fogo em um mesmo local e a direção que ele toma para que seja usado com segurança”, explica Fillipe Tamiozzo.

O problema no Brasil, como sempre, é a falta de fiscalização. Para o professor Tamiozzo, a falta de dados concretos sobre queimadas e incêndios prejudica a pesquisa e a prevenção de danos. “O fogo tem um padrão de comportamento. Nós temos condições de saber onde ele começou para encontrar os responsáveis e puni-los, mas isso exige perícia e fiscalização”.

O conhecimento científico para lidar com queimadas em zonas rurais é uma prerrogativa dos engenheiros florestais. Eles têm formação específica para lidar com incêndios florestais, manejando e controlando o fogo com técnicas seguras e eficientes. A água, por exemplo, nem sempre é o melhor recurso.  “Em uma queima controlada ou prescrita, só se usa água se algo deu errado”, informa Fillipe Tamiozzo.

Para a segurança de animais e da população e para o bem da economia e do meio ambiente, os pesquisadores entrevistados concordam que a melhor maneira para lidar com o fogo é evitá-lo.  Eles insistem que o fogo é uma atividade antrópica, ou seja, precisa ser provocado. “A seca prolongada não é desculpa para o aumento de queimadas. Se tem fogo foi porque alguém o colocou ali. A falta de chuvas só cria as condições ideais para que os incêndios se alastrem”, conclui o professor Flávio Justino. 

Léa Medeiros
Divulgação Institucional
Foto: Gumercindo Lima

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