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Incidência de pernilongos tem aumentado, segundo pesquisador da UFV

18/10/2017

O mosquito também se alimenta da seiva das plantas

Um verdadeiro clássico das madrugadas: você desperta no meio da noite, acende a luz e, vociferante e cambaleante, saca de uma raquete elétrica na esperança de eliminar os inconvenientes seres que interromperam seu descanso. Cômica se não fosse trágica, a cena de perseguição noturna aos pernilongos é cada vez mais comum – e não apenas devido ao advento do lúdico equipamento mencionado: em muitos lugares, a população de Culex quinquefasciatus e Culex pipens, para citarmos duas espécies habituais, está de fato maior. A ação humana tem grande responsabilidade nisso.

Não somente as temperaturas mais elevadas – inclusive fora dos períodos em que estas são esperadas, como no fim do inverno e durante a primavera – estimulam a incidência dos mosquitos em geral. Um dos principais fatores para a desagradável proliferação do pernilongo, como a que se observa em Viçosa atualmente, é falta de tratamento de esgoto. “As larvas se alimentam de matéria orgânica em decomposição. No Brasil, infelizmente, o destino da água utilizada normalmente são cursos d’água, que precisam da chuva para serem ‘limpos’. Como não tem chovido, surgiram condições apropriadas para a procriação do Culex, visto que assim as larvas dele têm alimento abundante”, explica o professor Gustavo Ferreira Martins, do Departamento de Biologia Geral da UFV.

Os prejuízos causados pelos representantes do gênero Culex são variados, a começar pelas dificuldades no sono devido ao irritante zumbido provocado pelo som das batidas das asas do inseto. “Durante a noite o mosquito é atraído pelo calor corporal e pelo gás carbônico liberado durante a respiração, por isso ele sobrevoa as proximidades do rosto”, afirma o professor Gustavo. O ácido lático do suor também é um atrativo para o bicho – que, realmente, tem preferência por algumas pessoas. “Aqueles que mais transpiram tendem a ser alvos preferenciais”, complementa.

O sangue, porém, não é sua refeição mais comum: como todo mosquito, é da seiva das plantas que vem a maior parte de sua alimentação. Quem sai à caça nas noites é a fêmea, que necessita de uma fonte de proteína para conseguir procriar. À medida que digere o sangue, dá origem aos ovos e, por conseguinte, a novos candidatos a nos atazanar. Segundo o professor Gustavo, como se alimenta em períodos de menor luminosidade, normalmente o Culex não pica quando as luzes estão acesas – ao contrário do Aedes aegypti, transmissor do vírus da dengue, de hábitos diurnos. “Ainda que o horário preferencial do Aedes seja o dia, ambientes iluminados podem levá-lo a picar também fora de hora”, observa Gustavo. O que parece sugerir uma parceria entre ambos – Culex e Aedes – procede: um evita o horário do outro, de modo a não entrarem em competição pelo alimento.

Em princípio “inofensivo” em determinadas regiões, o Culex já começa a ser associado a vírus perigosos, como o Zika. Estudos têm demonstrado que existe a possibilidade de que ele tenha a capacidade de funcionar como vetor desse patógeno, conforme já se demonstrou em áreas endêmicas, a exemplo de Recife. “Há novas evidências de que possa transmitir o Zika. Basta que o vírus esteja circulando em grandes conglomerados urbanos”, ressalta Gustavo, que ainda faz outro alerta: novas ameaças podem rapidamente surgir nos centros urbanos devido aos pernilongos, como os vírus Oropouche e Marayo, comuns na Amazônia e com potencial para se tornarem outros sérios problemas de saúde pública.

Apesar de tantos transtornos, o minúsculo inimigo do homem tem proporcionado o surgimento de pesquisas diversificadas. A saliva do mosquito, por exemplo, tem propriedades curiosas, a começar por um componente anestésico importante. Além disso, apresenta elementos vasodilatadores e “inibidores de agregação plaquetária” – anticoagulantes – sem os quais não conseguiria sugar o sangue. “A saliva dos insetos hematófagos é uma farmacopeia, alvo de muitos estudos e que já levou a testes com potenciais vacinas”, afirma Gustavo. Quem sabe assim, conhecendo algo de bom que o danado proporciona, sua raiva seja ao menos atenuada da próxima vez que acordar com um zumbido...

Marcel Ângelo
Divulgação Institucional

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