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Capivara gigante é descrita pela primeira vez em dissertação defendida na UFV

21/05/2018

A capivara atual (colorida) é cinco vezes menor que a estudada na dissertação (a do meio)

Se muita gente fica assustada ao se deparar com uma capivara – maior roedor do planeta, que pesa em torno de 40kg –, já pensou se o bicho pesasse cinco vezes mais e chegasse a dois metros de comprimento? Pois era esse, provavelmente, o tamanho do Neochoerus sulcidens, ancestral do animal que atualmente chama a atenção das pessoas perto de lagos e rios em cidades como Viçosa e Juiz de Fora. A presença desses monumentais representantes da chamada megafauna brasileira na região central do país foi um dos tópicos discutidos numa dissertação de mestrado apresentada na Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Em Capivaras (Rodenthia: Caviomorpha) do Quaternário da região intertropical do Brasil: morfologia e taxonomia, a agora mestre Anny Carolyne Freitas Gomes analisou esta capivara gigante, que habitou áreas atualmente pertencentes a estados como Minas Gerais e Bahia há aproximadamente dez mil anos. Fósseis do animal pré-histórico foram descritos quase 180 anos depois de o cientista dinamarquês Peter Lund – considerado o pai da paleontologia brasileira – ter relatado as primeiras ocorrências em Lagoa Santa (MG). É a primeira vez que a anatomia do Neochoerus sulcidens recebe uma descrição.

Num cenário digno de um CSI paleolítico, os pesquisadores conseguiram produzir deduções bastante substanciais a partir das pistas disponíveis – isto é, os restos atribuídos à super capivara. Foram analisados os dentes superiores e inferiores, a porção craniana, o úmero, a cintura pélvica, o fêmur, a tíbia e o calcâneo. Com isso, foi possível fazer uma estimativa preliminar da massa corporal, sugerindo que o bicho chegasse a pesar 200kg. “Os dentes são ótimos indicadores para mamíferos. Pela morfologia deles, podemos dizer o hábito alimentar, a idade e por vezes a espécie a que pertence”, explica a professora Gisele Lessa del Giúdice, do Programa de Pós-graduação em Biologia Animal da UFV e orientadora da dissertação.

As tataravós das capivaras contemporâneas, a exemplo destas, provavelmente conviveram com seres humanos no período estudado, mas também com outros animais igualmente extintos que ainda hoje habitam o imaginário humano, como o tigre-dente-de-sabre, a paleolhama, preguiças e tatus gigantes. Alguns deles vêm sendo estudados na UFV, como o Xenorhinotherium bahiense, mamífero parecido com um camelo que possuía uma tromba semelhante à da anta, já tendo sido objeto de dissertação no mesmo programa. Outro trabalho está em andamento com a finalidade de descrever um tipo de jaritataca, carnívoro de pequeno porte que freqüentou a mesma região. Segundo a professora Gisele, não se sabe ao certo as razões que levaram à extinção do Neochoerus sulcidens, bem como dos demais bichões citados, mas tudo indica que a alteração na vegetação, decorrente do esfriamento no período glacial, seja a causa.

Autora da dissertação, Anny se diz satisfeita e orgulhosa pela pesquisa que desenvolveu. “Eu me sinto muito honrada, tanto pelo pioneirismo desse trabalho descritivo no Brasil quanto pela oportunidade de analisar o material coletado na década de 1980 pelo professor Cástor Cartelle Guerra (renomado paleontólogo que encontrou vários fósseis na Bahia)”. A pesquisadora agora pretende seguir com os estudos no doutorado, elaborando uma revisão taxonômica de todas as capivaras existentes, tanto as extintas quanto as atuais.

A dissertação recebeu ainda a colaboração dos professores Leonardo Rodrigo Kerber Tumeleiro (CAPPA- Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal, Universidade Federal de Santa Maria) e Castor Cartelle (Museu de Ciências Naturais da PUC/Minas), além dos demais membros da banca, professores Rodolfo Stumpp (UFMG) e Pedro Romano (DBA-UFV).

Marcel Angelo

Divulgação Institucional

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