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Por que as cigarras cantam tanto nesta época do ano?

05/11/2009

 

Quem mora ou já passou por Viçosa fica impressionado com o barulho causado pelo canto das cigarras nesta época do ano. E não só em Viçosa. Em outras cidades, como em Brasília, as cigarras chegam a incomodar o sossego dos moradores.

 

De tanto ouvir o canto das cigarras, o Núcleo de Divulgação Científica da UFV foi investigar o comportamento destas cantoras da natureza.

 

 

“Tendo a cigarra cantado durante o verão,

Apavorou-se com o frio da próxima estação.

Sem mosca ou verme para se alimentar,

Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,

pedindo-lhe alguns grãos para agüentar

Até vir uma época mais quentinha!”

 

Este é o início da fábula de Esopo “A cigarra e a formiga”, recontada por La Fontaine, e que certamente todos já ouviram na infância em variadas versões. A história fala de uma cigarra preguiçosa, que passou o verão cantando enquanto a formiga trabalhava.

É verdade que as cigarras cantam durante a estação quente e chuvosa, mas não por preguiça. O som é emitido pelo macho para atrair a fêmea. O ritual de acasalamento acontece quando caem as primeiras chuvas, no início de setembro, e os insetos adultos saem dos solos. Em Viçosa, nesta época do ano, o barulho que ouvimos é feito pela Quesada gigas, caracterizada por um porte maior e som mais estridente. Por volta de janeiro e fevereiro, aparecem cigarras menores, dos gêneros Fidicina, Dorisiana e Carineta, , que tem um canto menos ruidoso.

Diferente de outros insetos, como os grilos, o barulho não é feito pela fricção das asas. As cigarras possuem um aparelho estridulatório, que fica dentro do abdômen e o som é feito com movimentos de contração.

Após o acasalamento, as fêmeas depositam os ovos em rachaduras nos caules de plantas hospedeiras. Depois que os ovos eclodem, as ninfas, fase jovem da cigarra, descem por fios de seda até o solo, onde elas ficam a maior parte da vida.  No Brasil, o ciclo de vida desses insetos dura um ou dois anos, sendo apenas dois ou três meses fora do solo. Em outros países, como os Estados Unidos, o ciclo de vida das cigarras pode chegar até 17 anos.

Ao contrário do que diz a fábula, as cigarras não se alimentam de moscas, vermes ou grãos. Enquanto jovens, elas sugam a seiva das plantas pela raiz e injetam toxinas. Na fase adulta elas também se alimentam da seiva, mas, desta vez, sugada pelo caule e folhas das plantas. Para algumas culturas, as cigarras são pragas de grande importância. Segundo o professor do Departamento de Entomologia Agrícola, Marcelo Picanço, em alguns casos as plantas morrem ou ficam depauperadas, podendo ser encontradas milhares de ninfas nas raízes. A ingazeira, os eucaliptos e abacateiros são exemplos de plantas hospedeiras prejudicadas pelas cigarras, mas é na cultura de café que as cigarras causam maiores danos.  Em Minas, o ataque das cigarras aos cafezais é mais freqüente na região sul do estado. A depauperação da planta causa descoloramento e queda precoce das folhas, sendo mais preocupantes nas épocas de seca. As conseqüências são quebra significante da produção e até mesmo perda total da lavoura se não for controlada a tempo.

Para controlar a praga são utilizados inseticidas aplicados na fase chuvosa para melhor absorção das raízes e para que as ninfas sejam combatidas logo que furam os solos. Também é possível fazer o controle com o fungo Metarhizium. Mas o controle biológico é mais eficaz quando associado ao uso de inseticidas, porque o fungo tem mais facilidade de penetrar nas ninfas debilitadas.

Também é possível o controle cultural, eliminando os pés de café infectados e plantando outros no local após três anos e evitando o plantio de outras plantas hospedeiras do inseto próximo às plantações.

As cigarras estão presentes em quase todas as regiões do mundo, tanto em climas quentes como frios, e têm poucos predadores. Na fase adulta, são alimento para pássaros e enquanto ninfas são atacadas por besouros, alguns mamíferos, como o tatu, e quem diria, por formigas predadoras que vivem nos solos.  

Daniela Araújo para o Núcleo de Divulgação Científica da UFV

Coordenação: Léa Medeiros- Jornalista

E-mail: ciencia@ufv.br